CPI da Covid: Wajngarten se contradiz sobre Pfizer e mente sobre declarações que fez à Veja

Fábio Wajngarten em depoimento na CPI da Covid

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Chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) da Presidência até março de 2021, Fabio Wajngarten causou perplexidade em senadores que compõem a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid em depoimento nesta quarta-feira (12).

Wajngarten foi chamado a depor após uma entrevista que concedeu à revista Veja, na semana passada, atribuindo o atraso na compra de vacinas à “ineficiência” do governo federal, mais especificamente, ao ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

Além de não assumir as declarações feitas à revista, o ex-secretário elogiou Bolsonaro e Pazuello, evitou respostas objetivas e se contradisse sobre negociações de vacinas com a empresa estadunidense Pfizer.

“A manchete serve para vender revista, trazer audiência e chamar atenção”, declarou, minimizando suas próprias afirmações à imprensa.

A postura foi criticada por senadores, e a sessão precisou ser interrompida durante as perguntas do relator Renan Calheiros (MDB/AL), até que se acalmassem os ânimos.

O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD/AM), repreendeu o depoente após as respostas contraditórias: “Senhor Fabio, você só está aqui por causa da entrevista à Veja. Se não, a gente nem lembraria de você. Por favor, não menospreze a nossa inteligência”.

Aziz sugeriu suspender a sessão até a revista fornecer a gravação do áudio da entrevista, sem cortes. A sugestão não foi acatada pelos demais senadores, e a sessão que começou as 10h se estendeu ao longo da tarde. Sobre a necessidade de pedir o material à Veja, houve consenso.

Nesta quarta-feira (12), após a negativa de Wajngarten, a revista Veja disponibilizou o áudio do ex-titular da Secom.

Ao ser questionado pelo repórter da revista se havia negligência ou incompetência do ex-ministro da Saúde em relação à compra da vacina, Wajngarten é enfático: “Incompetência, incompetência”.

“Quando você tem um laboratório americano, com cinco escritórios de advocacia apoiando na negociação e você tem do outro lado um time pequeno, tímido, sem experiência, é 7 a 1”, diz o ex-secretário no áudio divulgado pela revista. Ouça abaixo:

Diante das mentiras contadas pelo ex-secretário, os senadores Calheiros e Fabiano Contarato (Rede-ES) pediram a prisão do depoente por violação flagrante do artigo 342 do Código Penal. O pedido foi rejeitado pelo presidente da CPI.

Confira o que disse de Wajngarten sobre os principais temas.

Negacionismo de Bolsonaro

Embora fosse responsável pela comunicação da Presidência da República, o ex-chefe da Secom disse que não tem nenhuma responsabilidade sobre as declarações recorrentes de Bolsonaro contra a vacinação e contra medidas sanitárias de prevenção ao coronavírus.

“Os atos do presidente pertencem a ele. Não posso imaginar o que passava pela cabeça dele no momento em que falou isso”, disse Wajngarten.

“Eu não conversava com ele sobre isso. Pergunte a ele [quem o orientava]”, completou. 

Questionado sobre o vídeo “O Brasil não pode parar”, que desencorajava os brasileiros a ficarem em casa para prevenir o coronavírus, em março de 2020, Wajngarten afirmou:

“Não tenho certeza se esse vídeo é de autoria da Secom ou se circulou de forma orgânica.” Quando o vídeo circulou, em março de 2020, o então secretário disse que estava isolado em casa e afastado do cargo, justamente por ter contraído a covid.

O senador Humberto Costa (PT/PE) lembrou então que, no dia seguinte à circulação daquele material, a Secom disse que se tratava de uma “campanha experimental” – ou seja, assumiu responsabilidade pelo vídeo negacionista. Wajngarten negou, mais uma vez, conhecimento sobre a produção do material.

O ex-chefe da Secom disse, em seguida, que todas as peças – especialmente as “mais polêmicas” – tiveram anuência da Advocacia-Geral da União (AGU).

Após o intervalo, por volta das 16h, Wajngarten trouxe novas informações sobre a campanha “O Brasil não pode parar”:

“A campanha estava em fase experimental, de testes, e vídeos vazaram sem autorização em março de 2020. Foi um disparo acidental, e o ministro Luiz Eduardo Ramos assumiu a responsabilidade”, acrescentou.

Outras campanhas publicitárias sobre a pandemia

Wajngarten declarou ser “totalmente a favor” da adoção de protocolos como máscara e álcool gel contra o coronavírus, “acompanhando o que a medicina diz à época do conhecimento dos fatos”.

Segundo ele, a Secom fez campanhas para “contrapor” e “complementar” declarações de Bolsonaro sobre vacinação. Wajngarten disse ainda que encomendou “inúmeras” peças recomendando máscaras, álcool gel e distanciamento social contra a covid.

Como exemplo, o ex-secretário citou uma campanha em que o garoto-propaganda é o apresentador Otávio Mesquita. O senador Renan Calheiros lembrou, então, que Mesquita é declaradamente contrário ao isolamento social.

Wajngarten afirmou ainda que Bolsonaro nunca interferiu em campanhas publicitárias relativas à pandemia: “Se isso tivesse ocorrido, eu pegaria minha mala e voltaria para minha empresa, em São Paulo”.

Ainda sobre o tema, Wajngarten disse desconhecer qualquer pagamento do governo federal a influenciadores digitais para divulgar informações sobre o suposto “tratamento precoce” com medicamentos sem eficácia comprovada.

A “incompetência” de Pazuello

O ex-secretário disse que sua relação com o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, era distante. “Poucas vezes conversei com ele. Não mais que um bom dia, um boa tarde, uma noite”, relatou.

Embora tenha criticado a equipe de Pazuello por “incompetência”, como registrado na capa da revista Veja, Wajngarten não sustentou essa declaração na CPI. Pelo contrário, elogiou o ex-ministro.

“Ele foi corajoso de assumir o Ministério da Saúde no pior momento possível. A incompetência dele, que eu quis dizer, foi ficar refém da burocracia. A morosidade na tomada de decisões, característica da gestão pública, torna-se um problema em situações excepcionais como a pandemia”, concluiu o ex-chefe da Secom.

Os senadores concordaram que, assim que a revista fornecer a gravação completa da entrevista, Wajngarten pode ser reconvocado a depor na Comissão.

Perseguição a jornalistas

O ex-chefe da Secom disse à CPI não ter nenhuma relação com o aumento de ataques à imprensa no Brasil. Segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras, Jair Bolsonaro e seus filhos cometeram 460 ataques dessa natureza em 2020.

“Precisamos analisar caso a caso. É muito difícil reagir quando são publicadas inverdades na imprensa. Mas garanto que nunca houve perseguição à imprensa”, afirmou.

Negociações com a Pfizer

As contradições mais evidentes de Wajngarten têm relação com as negociações com a Pfizer para compra de imunizantes. À Veja, o ex-secretário deu a entender que a incompetência do governo atrasou o acesso dos brasileiros à vacina.

No início do depoimento, Wajngarten disse que se reuniu com a equipe do laboratório estadunidense.

“Minha primeira reunião com o CEO da Pfizer foi em 17 de novembro. Ele disse que queria que o Brasil fosse a vitrine na América Latina da Pfizer, que naquele momento tinha a maior perspectiva de eficácia. Não discutimos valores e doses. O presidente Bolsonaro não participou”, relatou.

“Sempre busquei mais vacinas, no menor prazo”, acrescentou.

A fala causou estranhamento, uma vez que a compra de vacinas não têm relação com a secretaria de Comunicação da Presidência. Wajngarten, então, afirmou: “Não participei de nenhuma negociação com a Pfizer.”

Perguntado sobre quem teria dificultado as negociações, o ex-secretário respondeu que não sabia. Além disso, declarou que entende as justificativas para a não aceitação da oferta, dadas as condições “draconianas” impostas pela fabricante.

Wajngarten disse que uma carta de setembro da Pfizer a membros do governo brasileiro, oferecendo vacinas e pedindo celeridade, não foi respondida. Bolsonaro, o vice Hamilton Mourão e o ministro da Economia, Paulo Guedes, e Pazuello receberam aquela carta.

“No primeiro momento que soube da inação em relação à carta da Pfizer, mergulhei de cabeça para tentar garantir vacinas aos brasileiros”, disse o ex-secretário.

A carta teria chegado a Bolsonaro em 12 de setembro de 2020; Wajngarten se reuniu com o CEO da Pfizer em 9 de novembro. Ou seja, a oferta de vacinas ficou sem resposta do governo por quase dois meses.

A negociação só avançou depois que o então chefe da Secom, sem relação com a pasta da Saúde, tomou a iniciativa de negociar com a fabricante. A compra foi autorizada pela Anvisa em fevereiro de 2021.

“Levou seis meses, desde a carta da Pfizer, para que toda a cúpula do Ministério da Saúde fosse convencida da compra das vacinas”, ressaltou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

O CEO da Pfizer no Brasil, Carlos Murillo, será um dos depoentes da CPI da Covid na quinta-feira (13), a partir das 10h.

Fonte: Brasil de Fato

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